Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força.
Posted: October 24th, 2006 | Author: Dani Lima | Filed under: Livros, Mau-humorada, É cultura! |“…Goldenstein era o renegado e traidor que um dia, muitos anos atrás (exatamente ninguém se lembrava), fora uma das figuras de proa do Partido, quase no mesmo plano do Grande Irmão, tendo depois se dedicado a atividade contra-revolucionárias sendo por isso condenado à morte, da qual escapara, desaparecendo misteriosamente. O programa dos dois minutos de ódio vairava de dia a dia, sem que porém Goldenstein deixasse de ser o personagem central cotidiano. Era o traidor original, o primeiro a conspurcar contra a pureza do Partido. Todos os subsequentes crimes contra o partido, todas as traições, atos de sabotagem, heresias, desvios, provinham diretamente dos seus ensinamentos…
… Insultava o Grande Irmão, denunciava a ditadura do Partido, exigia a imediata conclusão da paz com a Eurásia, advogava a liberdade da palavra, a liberdade de imprensa, a liberdade de reunião, a liberdade de pensamento, gritava histericamente que a revolução fora traída…
No segundo minuto o ódio chegou ao frenesi. Os presentes pulavam das cadeiras, e berravam a plenos pulmões, esforçando-se para abafar a voz alucinante que saía da tela…
…A morena atrás de Wiston pusera-se a berrar “Porco! Porco! Porco!”. De repente apanhou um pesado dicionário de Novilíngua e atirou-o à tela…
…Num momento de lucidez, Wiston percebeu que ele também estava gritando com os outros batendo os calcanhares violentamente contra a travessa da cadeira. O horrível dos Dois minutos de ódio era que embora ninguém fosse obrigado a participar, era impossível deixar de se reunir aos outros.”
…
“- Não devíamos tê confiança neles. Eu te disse, mãe, não disse? Foi isso que deu tê confiança neles. Foi o que eu sempre disse. Não deviamos tê confiança no sacana.
Mais quais sacanas não mereciam confiança, Wiston já não lembrava.
Desde mais ou menos aquela época, a guerra fora literalmente contínua, embora, a rigor, não fosse sempre a mesma guerra…
…Mas seguir a história de todo o período, dizer quem lutava, contra quem, em determinado momento, seria absolutamente impossível, já que nenhum registro escrito, nem palavra oral, jamais faziam menção de outro alinhamento de forças, diferente do atual. Naquele momento, por exemplo, em 1984 (se é que era 1984), a Oceania estava em guerra com a Eurásia e era aliada da Lestásia. Em nenhuma manifestação pública ou particular se admitia jamais que as três potências se tivessem agrupado diferentemente. Na verdade, como Wiston se recordava muito bem, fazia apenas quatro anos a Oceania estivera em guerra com a Lestásia e em aliança com a Eurásia. Isso, porém, não passava de um naco de conhecimento furtivo, que ele possuía porque a sua memória não era satisfatoriamente controlada…
…O inimigo do momento representava sempre o mal absoluto, daí decorrendo a impossibilidade de qualquer acordo passado ou futuro com ele.
… O espantoso - refletiu pela décima milésima vez - é que pode mesmo ser verdade. Se o Partido tem o poder de agarrar o passado e dizer que este ou aquele acontecimento nunca se verificou - não é mais aterrorizante do que a simples tortura e morte?”
Porque para mim, a pergunta mais importante do momento não é: “em quem você vai votar?”, mas “o que vamos fazer para modificar o jeito como é feita a política nesse país?”.




Percebe-se que vc leu 1984 recentemente
É impressionante como esse livro é atual - e mais impressionante ainda que não precisamos de inúmeras pessoas trabalhando no ministério da verdade para apagar o passado - ele se apaga por si só.
beijos
este livro eh realmente mto bom. Eu li quando tinha 16 anos, acho que ta na hora de ler novamente…
beijos,
Si.
No Brasil, é inútil votar. De nada serve escolher um candidato, se toda prática política já vem corrompida, desde o nascedouro. Mudar de figurinhas não alterará o jogo de cartas marcadas da política brasileira. É preciso se preocupar, antes, em mudar o baralho, ensinando ao jogador como se joga. Só então o jogo irá virar, a favor de todos.
O Brasil é um país sem tradição democrática, pois foi, tem sido e é comandado por uma elite mafiosa, composta por banqueiros, latifundiários, grandes empresários, donos da mídia, políticos, juízes e líderes religiosos e militares. O povo nunca teve, nem nunca terá representatividade verdadeiramente democrática, não numa ‘republiqueta de mierda’ como a brasileira.
Enquanto não mudarmos a velha ótica da “Ordem e Progresso”, lema perverso de princípios desumanos, para “Ética e Solidariedade”, de cunho humanista e cidadão, seremos sempre um “país do futuro”, da “esperança” (que jamais chega); seremos sempre essa promessa do porvir, mas nunca um país do presente, das ações concretas e transformadoras - de meros indivíduos para cidadãos, e mais: de cidadãos comuns para cidadãos do mundo.
O voto nunca será uma arma verdadeiramente democrática no Brasil, por causa disto: porque sempre fomos e somos nada mais, nada menos, do que um bando de escravos modernos, numa Oligarquia velada, pois nossos “representantes” não representam a ninguém, a não ser os interesses da máfia oculta por trás dos Três Pod(r)eres.
Democracia não se faz com “representantes”, mas com o próprio Povo, tomando ele mesmo as rédeas do poder. Democracia, de fato, é a Democracia Direta, pela Ação Direta. Por enquanto, talvez tenhamos que esperar mais quinhentos anos, até que uma nova civilização tome forma no Brasil… Mas como? pois quem foi educado (diga-se: domesticado, adestrado, amestrado) como galinha, dificilmente aprenderá a levantar voos de águia…
Enfim, o que esperar de um povo cuja Constituição Federal, que se diz laica, republicana e democrática, e ostenta, ao mesmo tempo, dizeres como: “sob a proteção de Deus”?… Que querer de uma “democracia” na qual sua constituição prevê a liberdade de expressão e pensamento e o direito de ir e vir, quando, em contextos como os de eleição, obriga seus cidadãos (”livres para pensar e se expressar”) a saírem de suas casas para concordarem, forçosamente, tanto com o nível e os candidatos do Esquema, quanto com o sistema eleitoral e a forma de se fazer política vigente?
Definitivamente, ainda somos primatas em matéria de democracia e a prova mais cabal disso são as contradições da Constituição da República Federativa do Brasil e a condescência pagadora de mico do povo brasileiro.
Max Müller
Olá!!
Ótimo “post”…adoro esse livro…gosto pela visão (mesmo de quando foi elaborado) e pela sensação de desespero que me dá ao vê-lo se profetizando…
Abraço,
Rafael